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Eckhart Deus-Um

Mestre Eckhart — Termos e Noções


Tese de doutorado de Isabelle Raviolo, L’Incréé chez Maître Eckhart

A filiação adotiva, ou filiação por graça de adoção, representa, portanto, todo o desafio do tema do incriado na mística de Eckhart; e é pelo Espírito Santo que ela se manifesta, pois é por ele que a graça da doação do Pai, ou seja, que a graça de seu Verbo, se cumpre no coração do homem que assim recupera seu laço de unidade eterno com o Princípio: “Ninguém tem o Espírito Santo a menos que seja o Filho unigênito. O Pai e o Filho espiram o Espírito Santo onde o Espírito Santo é espirado, pois isso é essencial e espiritual.” Falando a partir da geração do Verbo, Eckhart reúne uma teologia da criação, da Trindade e da glorificação. Pai, Filho e Espírito Santo são Um no ser e na essência. E esta unidade da essência é algo inefável, a Summa Res de Pedro Lombardo, esta realidade sobrenatural e eterna que não é filosófica, mas teológica. O incriado em Eckhart é, portanto, uma realidade de fé. Nenhuma das três Pessoas divinas é a causa de Deus; Deus está acima de tudo isso, e, no entanto, é revelado um e trino. O incriado não é, portanto, um conceito, mas designa o Deus Um sem unidade e trino sem Trindade: “Nas realidades divinas e principalmente em Deus é necessário professar e confessar o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e que ‘estes três são uma só coisa’ (‘hi tres unum sunt’, não unus) mas não um só; que, além disso, eles são co-eternos, co-iguais e consubstanciais (coaeterni, coaequales, consubstantiales), uma só coisa em tudo o que pertence à natureza, mas distintos unicamente em tudo o que conota ou implica o gerar e o ser gerado, o espirar e o ser espirado, e tem o seu sabor.”


O incriado de Deus não é, portanto, nem um isto nem um aquilo, nem um aqui nem um lá. Não é nada do que se pode dizer, está além de todo nome e até mesmo além do indizível em si mesmo. Tal é o Deus Um: por “Um,” Eckhart entende a natureza incriada de Deus. Ora, “o que designa Um?” questiona o Mestre no Sermão 21: “‘Um’ designa aquilo a que nada é acrescentado. A alma toma a Deidade tal como ela é pura em si mesma, onde nada é acrescentado, a que o pensamento nada acrescenta. ‘Um é a negação da negação.’” Deus Incriado então se identifica com este Deus “Um,” “negação da negação.” É por isso que conhecer Deus, segundo sua essência ou sua Deidade, é conhecê-lo segundo seu “Um” ou sua natureza incriada. E este conhecimento não recorre mais às palavras do raciocínio discursivo, pois se situa na ordem do discurso místico onde a palavra apofática traduz a dificuldade inerente em dizer o indizível. Pois o conhecimento de Deus enquanto Incriado é da ordem de uma nesciência. É por isso que é aos olhos de Eckhart um conhecimento “puro”: “O conhecimento puro onde não há nem ‘aqui’ nem ‘agora’. Deus quer dizer: por mais alta, por mais pura que seja a vontade, é preciso que ela suba mais alto.”


Se se trata aqui do Ser-Um que Eckhart já evocava no sermão alemão 5b: “Neste Um, o Pai gera seu Filho na fonte mais íntima. Lá o Espírito Santo floresce e lá jorra em Deus uma vontade que pertence à alma”; parece que se se der toda a atenção à interpretação teológica deste “Um,” não se pode separá-lo da Trindade. De fato, a mística eckhartiana se cumpre neste “florescimento do Espírito Santo” na alma, o próprio sinal de sua fecundidade, como é dito no sermão 4: “O Pai e o Filho fazem florescer o Espírito Santo,” e eles o fazem florescer no fundo mais puro da alma, no Etwas in der Seele. Pela terceira hipóstase, Eckhart estabelece a interpretação teológica da habitação do Deus Um e Trino, por graça, no fundo da alma. Em seu comentário sobre João 1, 14, Mestre Eckhart realça a dimensão trinitária do mistério da habitação de Deus: “Assim como somos todos santificados no mesmo Espírito Santo que nos sobrevém, assim também pelo mesmo Filho de Deus somos todos justos e deiformes, nós em quem habita o Verbo feito carne no Cristo que nos conforma a ele pela graça e em virtude de quem ‘somos nomeados e somos verdadeiramente filhos de Deus.’”


É neste informe que reside a deidade, esta fonte de amor divina que escapa a tudo o que se pode dizer, e que em sua nudez só é percebida pelo poder intelectivo, que em seu ardor viril, atravessa todos os elos do ser para tocar este último em seu núcleo, despojado da casca categorial: “O intelecto tira de Deus a pelagem da bondade e o toma em sua nudez onde ele está despojado de bondade e de ser e de todos os nomes. (...) O intelecto toma Deus em sua nudez, despojado de bondade e de ser.” O intelecto capta até mesmo as palavras inefáveis e inexprimíveis, ou melhor, ele penetra a nudez divina, e perfura até este conhecimento sublime onde cada palavra não é senão uma gota de orvalho em comparação com o Verbo verdadeiro, onde cada conhecimento não é senão um fraco vislumbre da luz do intelecto divino: assim, quanto mais o intelecto penetra em Deus mais ele se esvazia de todo apoio intelectivo e vai direto à deidade, sem passar pelos desvios do saber humano que só fazem entenebrecer a clara visão do Espírito: “Se alguém pensa saber alguma coisa, ainda não sabe como se deve saber,” ou ainda: “Eu sei bem que eu mesmo, ainda não apreendi.” Trata-se, portanto, de um amor intelectual a Deus, já que o modo de elevação para Deus é um modo intelectivo: o gênio especulativo cava em Deus, perfura estas veias conceituais para reencontrar o núcleo, o ponto nodal, a unidade do Deus Um. O que acontece então com a doação neste esquema intelectivo? Precisemos em primeiro lugar o movimento intelectual do processo negativo: a negatividade, como se viu, está no coração da dinâmica da doação na medida em que ela caracteriza o modo supremo de conhecimento de Deus: Deus só se apreende negativamente, isto é, além de tudo o que se pode captar, afirmar ou mesmo negar: é por isso que convém empregar o termo de negatividade em vez do de negação, que indica um certo caráter estático que correria o risco de congelar Deus na apofase, e terminaria abruptamente, enquanto o apofatismo é apenas um meio de acesso à deidade, isto é, a esta essência divina, além do ser, ou seja, desvencilhada de toda categoria do criado. Pois a negatividade indica acima de tudo esta perfuração intelectiva da penetração, esta força desnudante do deslocamento que significa um abandono, um despojamento, uma busca da não-dualidade na própria vida da relação. De fato, quanto mais a alma penetra, mais ela se torna interior, isto é, mais ela perde todos os seus nomes e todos os nomes de Deus: este impulso é propriamente intelectual; ele se cumpre como uma interiorização purificadora e simplificadora. E esta não-dualidade, por negatividade, situa o homem no centro de si mesmo, em sua luz intelectiva incriada que o une diretamente ao Deus incriado: “A bem-aventurança de Deus reside na operação para o interior do intelecto onde reside o Verbo. A alma deve ser lá um ‘advérbio’ e operar uma única obra com Deus, a fim de extrair sua bem-aventurança no conhecimento que paira em si mesma: neste conhecimento onde Deus é bem-aventurado.”